O livro eletrônico é apenas um livro: notas para um debate
Publicado originalmente em:
MOREIRA, Walter. O livro eletrônico é apenas um livro: notas para um debate. Plug Salesiano, 30 set. 2004. Disponível em Portal Salesianas
Vivemos o século XXI e em vez de odisséia no espaço ou mesmo uma alucinante viagem de volta para o futuro, como muitas vezes nos fez acreditar Hollywood, estamos mais presos à Terra do que nunca, mesmo nossos vôos da imaginação custam cada vez mais. Basta visitar alguma livraria e comprovar.
Das promessas feitas há vinte, trinta anos sobre o terceiro milênio pouca coisa concretizou-se. A revista Popular Mechanics publicou recentemente um mesmo artigo que havia publicado alguns anos antes no qual fazia previsões sobre o futuro – este que vivemos hoje – e sua praticidade: louças descartáveis, móveis de sala laváveis, um creme que removeria sem sofrimento a pelagem que nos reveste o rosto e lembra nossa proximidade com os símios e outras maravilhas.
Já deveríamos ter aprendido a lição: nem sempre – quase nunca – é aconselhável prever o futuro com base no que foi o passado. Não se trata aqui, entretanto, de uma visão pessimista simplesmente, pois se por um lado muito do que foi imaginado desmanchou-se no ar, por outro, coisas que jamais foram sonhadas, nem mesmo nas melhores ficções, são hoje desconcertantemente reais. A internet e sua complexidade, por exemplo, ou o livro eletrônico.
O livro (de papel), por conta de sua variante eletrônica, tornou-se ultimamente a grande vedete do debate, sua morte e ressurreição foram decretadas diversas vezes nos últimos anos. Alguns debates inteligentes foram produzidos, como o que procura investigar o objeto livro enquanto artefato consensual, enquanto suporte de informação, e o conceito de livro desvinculado de suporte, que se realiza na interação autor-leitor. Os mais afoitos, diz Darnton (2001, p. 7) acreditaram ingenuamente na substituição do livro por julgarem que “os computadores seriam suficientes, supostamente porque acreditavam que os livros nada mais fossem que recipientes de informação. Calvino também ironizou isso em seu Se um viajante numa noite de inverno, um texto belíssimo sobre as desventuras de um leitor e suas relações com o livro.
Um livro eletrônico - um site, CD-ROM ou qualquer outro objeto de informação – precisa ter conteúdo, não se basta como artefato, não se sustenta culturalmente. O grande problema é que o conteúdo informacional de um documento não é tão facilmente identificado quanto o de outro objeto que independe da interação para atualizar-se.
O crescente número de livros eletrônicos na internet (gratuitos ou pagos) se não resolve pelo menos reacende o debate sobre a necessidade primordial de identificar mecanismos de oferecimento do livro (objeto) como condição para que o ser humano tenha acesso ao livro (diálogo mágico).
As tecnologias de acesso talvez sejam hoje um dos maiores entraves relacionados à popularização dos livros eletrônicos. Esqueçamos, então, a advertência inicial e apostemos novamente no futuro. A FAPESP noticiou recentemente o envolvimento de alguns pesquisadores da Universidade de Toronto na criação de uma nova rede com recursos da nanotecnologia, de altíssima velocidade (100 vezes mais rápida que atual) e inteiramente baseada na luz (AGÊNCIA FAPESP, 2004). O papel eletrônico (e-paper) e a tinta eletrônica (e-ink) são igualmente iniciativas neste sentido. Parece que não nos desvencilharemos assim tão facilmente do sonho iluminista.
Referências
AGÊNCIA FAPESP. Internet na velocidade da luz. 24 ago. 2004. Disponível em www.agencia.fapesp.br
Acesso em: 30 ago. 2004
CALVINO, Ítalo. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
DARNTON, Robert. O poder das bibliotecas. Folha de São Paulo, 15 abr. 2001. Mais!, p. 4-7.





